Você sabe o que é psicanálise?

Postado em 27 de junho de 2025

Em tempos de múltiplas ofertas terapêuticas, é comum que a psicanálise seja confundida com outros métodos de escuta e cuidado psíquico. Mas a psicanálise não é uma psicoterapia no sentido comum do termo. Ela não visa o bem-estar imediato, nem trabalha com protocolos de intervenção ou metas de desempenho emocional. A psicanálise é o campo do inconsciente — e é aí que começa sua diferença mais radical.
Criada por Sigmund Freud no fim do século XIX e desenvolvida ao longo do século XX por pensadores como Jacques Lacan, a psicanálise se constitui como um método clínico e uma teoria sobre a estrutura do sujeito. Sua ferramenta essencial? A palavra. Mas não qualquer palavra — aquela que escapa, tropeça, desliza ou silencia. O tratamento psicanalítico se dá exclusivamente pela palavra e pela interpretação que, feita pelo analista, fura a superfície do que se diz, abrindo caminho para o que se cala: o inconsciente.
Ao contrário do que se pensa, a psicanálise não é indicada para quem simplesmente deseja “se conhecer melhor” em um sentido intelectual ou motivacional. A porta de entrada na análise é o sofrimento psíquico. Algo não vai bem, algo retorna, insiste, se repete — e é esse ponto de dor que funda a experiência analítica. Não se trata de ajustar comportamentos, mas de escutar o que a própria linguagem do sujeito revela sobre sua posição no mundo, seus impasses, seus desejos, seus excessos e sintomas.
A força da psicanálise está nessa íntima ligação entre palavra e afeto. Uma fala qualquer, dirigida a um analista, pode carregar uma carga pulsional enorme, e sua interpretação — feita no momento exato — pode produzir deslocamentos subjetivos decisivos. A análise é um espaço ético, onde não se trata de adaptar o sujeito à realidade, mas de permitir que ele se aproxime de sua verdade singular, mesmo que ela venha, às vezes, em forma de tropeço, lapso ou sonho.
Psicanalisar-se é comprometer-se com o que em si não se sabe. É uma travessia, não um mapa. Não oferece atalhos nem garantias, mas sustenta a aposta de que, ao dar lugar à palavra — aquela que causa, que fere, que insiste — é possível reconfigurar a relação com o próprio desejo.
Se a psicoterapia busca restaurar o equilíbrio, a psicanálise desacomoda. Mas é justamente aí que reside sua potência: não em acalmar o sujeito, mas em levá-lo a escutar o que há de mais vivo, estranho e verdadeiro em si mesmo.

Por: Maria Odete G. Galvão
Psicóloga e Psicanalista, professora de psicanálise e diretora do
NUPPAC, Núcleo de pesquisa em psicanálise, arte e cultura.
Agendamentos: (11) 97100-5253

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