É possível uma ciência do desejo?

Postado em 7 de março de 2019

David chega para a primeira entrevista exausto, há dias não dorme, suando e falando sem parar. Executivo de uma empresa que, segundo ele, investe muito nos funcionários, já participou de várias sessões de Coach, faz meditações, mas ninguém consegue dar solução para a sua angústia; relata que tem piorado muito nos últimos tempos!
– Parece que essas técnicas oferecidas pela empresa não são para mim, não me sinto bem! Será que estou ficando louco?
Seu pedido de ajuda é desesperado, difícil até de acompanhar, com uma infinidade de “louco”, “loucos”, “loucura”. Porém, dentre essa avalanche de palavras, sem intervalos, deixa transparecer certa agressividade e um desafio disfarçado através de uma pergunta:
– Estou exausto de terapeutas e gurus cheios de boas intenções, agora quero saber de você. Alguns amigos meus se analisam aqui. O que é que você me diz, estou enlouquecendo?
– O que é estar louco para você? – Pergunto eu, muito pausadamente, o que gera um espanto, porém, o faz sair da posição de desafio e reflete:
– Não sei… É uma mania que eu tenho, chamo todo mundo de louco!
Fica em silêncio por alguns minutos:
– Isso é algo importante?
É através de uma pontuação do analista que o discurso comum é transformado em manifestação do inconsciente. É a operação do analista que indica ao sujeito que ele diz mais do que sabe.
Desde seu nascimento, a psicanálise tenta cumprir essa nobre função, a de construir e fazer presente um saber sobre o desejo que fosse compatível com os paradigmas da ciência moderna. Freud passou a vida nessa tentativa, concluindo que, quando desenvolvemos um sintoma, estamos produzindo uma mensagem codificada sobre os segredos mais íntimos, os desejos e os traumas inconscientes. Porém, foi Jacques Lacan que por volta dos anos 60, em seu retorno a Freud, quem afirmou que a ciência do desejo deveria entrar no âmbito das ciências humanas, e utilizou várias linguagens para captar os impasses da clínica.
Dentre suas frases mais famosas está: “Não ceder ao seu desejo”.
Para ele só se sente culpado quem cedeu ao seu desejo. Para a filosofia não há liberdade sem responsabilidade, para a psicanálise, de um lado temos a culpa, do outro a responsabilidade. A culpa é uma crítica de nossa consciência do dever. A responsabilidade só aparece quando temos consciência do nosso verdadeiro desejo.
Podemos atribuir a essa frase que, enquanto não se tem a consciência do desejo, a culpa vai se apresentar como um encobrimento da verdade. Reconhecer o que realmente queremos é um ato de responsabilidade. Se uma pessoa se responsabiliza pelo seu desejo, não o nega, nem cede, ao contrário, elabora uma pergunta sobre ele: Eu quero o que eu desejo?
E a consequência desse questionamento é o desaparecimento da culpa.
David, que do ponto de vista financeiro já conquistou muito mais do que sonhou, não tem uma resposta para a angústia que o assola e, a partir desse dia, começou a prestar atenção às palavras que usava para definir seus afetos. Na sessão seguinte descreve que percebeu que não sabia identificar quando estava com raiva, triste ou com medo, tudo se transformava na palavra “loucura”. Implicado na sua própria fala, começa a perceber a responsabilidade sobre algo que, apesar de lhe parecer alheio, lhe diz respeito, e afeta todo seu comportamento.
O percurso que a psicanálise oferece convoca a pessoa a transformar seus sintomas, através da leitura dessa mensagem codificada, convidando-a a se responsabilizar por sua existência. Não é algo simples, responsabilizar-se é algo doloroso, muitos de nós preferimos justificar, camuflando o desejo com um: “Eu não consigo, tenho TOC!”. Bom, já que você tem TOC isso justifica sua impossibilidade. Então, se retiramos o TOC, o que você fará com sua impossibilidade? Outros preferem os “gurus” que, de tempos em tempos, brotam nas mídias com fórmulas mágicas para eliminar os sintomas, sem muitos esforços, é claro! E o tiro acaba saindo pela culatra, pois ao atribuir ao outro a responsabilidade de eliminar seus sintomas, eles aumentam, ou se transformam em sintomas diferentes.
Por isso os sintomas são importantes para o tratamento analítico, pois aparecem como mensagem codificada, como um hieróglifo, que nos levaria a decifrar um mundo desconhecido; uma linguagem que repetimos, mas que não temos nenhum acesso ao seu significado. E a única coisa que queremos é eliminar esse sintoma? Sem analisar ou elaborar? Quando ouço essas demandas, penso que Montaigne tinha razão, preferimos a ilusão prazerosa ao desgosto da pálida realidade.
Nesse sentido, a responsabilidade pelo seu desejo demanda muito mais do que abandonar a irresponsabilidade – eu não quero saber nada disso -, e convoca a pessoa a reescrever as repetições do passado causadoras de imobilidades e fazer surgir algo novo, através da palavra, e de um saber fazer com sua posição de sujeito no mundo.

Maria Odete G. Galvão
Historiadora, psicóloga e psicanalista, Mestre em semiótica psicanalítica pela PUC/SP, e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Arte e Cultura de Arujá
Fone: 4653-6691 / 97100-5253
Rua Vanderlei Nasser do Prado, 114
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www.mariaodeteggalvao.com.br
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