Depressão: doença incapacitante?

Postado em 5 de setembro de 2019

A Organização Mundial de Saúde deflagrou o alerta de que a depressão alcançou índices epidemiológicos alarmantes: cresceu quase 20% nos últimos dez anos e passou a se equiparar com as patologias que mais causam perdas econômicas. Assunto recorrente nos meios de comunicação em geral, esse fenômeno significativo vem marcando presença na linguagem do senso comum, de uma forma muito confusa e perigosa: os autodiagnósticos. Essa semana em especial, ouvi relatos nas sessões de análise sobre o impacto dos dados divulgados e do discurso médico em torno da depressão. Aqueles que vieram para as sessões de análise por conta do diagnóstico de depressão perceberam que ela não é apenas uma doença, mas ela sinaliza algo, e conseguiram dizer que antes da análise também chamavam de depressão tudo aquilo que era dor e sofrimento pela dificuldade de localizar, identificar e entender a causa dessa dor e desse sofrimento.
Os poetas e escritores descrevem de maneira muito elucidada o que é um sofrimento, Abel Silva e Sueli Costa escreveram o poema Jura Secreta, gravada por muitos, mas imortalizada na voz de Fagner: Só uma coisa me entristece/ o beijo de amor que não roubei/ a jura secreta que não fiz/ a briga de amor que não causei/ nada do que posso me alucina/ tanto quanto o que não fiz/ só uma palavra me devora/ aquela que meu coração não diz/ só o que cega e o que me faz infeliz/ é o brilho do olhar que não sofri.
Diferente da ciência médica que trata do corpo e das conecções neuronais por meio de descobertas que modificam ou anulam concepções antigas, a psicanálise aborda a depressão pela dimensão da linguagem, e avança a partir da incorporação de formulações teóricas que releem construções anteriores, ampliando-as sem necessariamente cancelá-las. Como nos versos acima, vemos a dificuldade de fazer o luto por uma perda daquilo que é muito caro ao sujeito: a liberdade, um ente querido, uma profissão, a casa, a criança idealizada dos pais etc., tudo que pode representar para ele um objeto de amor ou um ideal: nada do que posso me alucina, tanto quanto o que não fiz! O luto é a maneira mais eficaz, porém dolorida, de atravessar essa perda. Através do trabalho do luto vai se operando pouco a pouco desligamentos dos laços simbólicos e imaginários entre sujeito e objeto perdido, podendo reinvestir em um novo laço.
Nesse ponto que reside a dificuldade do sujeito em estado depressivo – impossibilitado de agir, repete sempre o mesmo. Terreno onde quase todas as psicoterapias falham, e recorrem à intervenção medicamentosa, como uma saída mais rápida e eficaz. O psicanalista Roland Chemama escreveu: “Depressão, a grande neurose contemporânea”; para ele a depressão representa uma unidade, um desinvestimento radical do desejo, associado a uma paralisia da ação, que reúne impotência e paralisia, o sujeito deprimido fica tomado em uma história romantizada de um sofrimento que lembra um amor impossível – uma jura secreta – que não é verdadeiramente a sua, não pode dar ao passado um novo sentido, diante disso recusa criar um futuro, vivendo numa espécie de nostalgia. Então, repete sempre o mesmo, o novo, que poderia ser favorável em sua vida, surge de maneira geralmente inesperada, podendo causar desespero, pois o sujeito que sofre ainda está ligado de forma romântica e amorosa ao objeto perdido fantasiado, não enlutado, e na maioria das vezes não identificado.
No âmbito da clínica psicanalítica, observamos que, para além de um funcionamento neuronal deficiente, existe a posição subjetiva, ou seja, a depressão tem uma causa e um sentido inconsciente, e que há espaço para encontrar a medida da responsabilidade inconsciente do sujeito nesse momento que ele atravessa em sua existência. A depressão não surge em qualquer hora, ela se inscreve num momento particular da vida de uma pessoa, ela não é fruto do acaso científico, como já afirmado acima, que há sempre um laço com algo muito antigo, uma perda, uma ruptura, que causaram dificuldades de simbolização: só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz. Só o que cega e o que me faz infeliz… Como afirma Lacan, tudo que foi excluído da linguagem retorna de forma fantasmática.
A depressão do ponto de vista psicanalítico é tratada através dessa expressão da renúncia ao luto, dessa palavra que devora, diante da perda do objeto, mantendo a pessoa sem desejo, sem energia, sem libido, completamente abandonada a uma posição paralisante, como se não houvesse nenhuma saída. Não se exclui totalmente o medicamento nesse tratamento, porém ele é introduzido somente em casos de diagnósticos elaborados por profissionais especializados na área. Pois a clínica comprova que toda tentativa terapêutica de devolver a energia a esse sujeito vai manter a ilusão de que é através da potência e da completude que ele pode chegar à tão almejada restituição da felicidade. Quando, na verdade, para criar algo novo é preciso aceitar que perder faz parte do jogo, e que não há garantias. Quando isso acontece o que se ganha é extremamente precioso: a possiblidade de ganhar e, portanto, de introduzir o novo, porque sai do discurso e vira decisão, podendo arriscar o impossível! Não há depressão que suporte algo tão fascinante!

Maria Odete G. Galvão
Historiadora, psicóloga e psicanalista, mestre em semiótica psicanalítica pela PUC/SP, e coordenadora do NUPPAC – Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Arte e Cultura de Arujá
Fone: 4653-6691 / 97100-5253
Rua Vanderlei Nasser do Prado, 114
Center Ville – Arujá
www.nucleodepesquisa.art.br
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